Projeto 6-12-1: O Egípcio

Guilherme tinha oito anos. Ele brincava na rua de queimada com os vizinhos. O sol já estava se pondo e as mães já gritavam os nomes das crianças chamando-as para entrar e tomar banho. Arthur, um dos amigos de Guilherme, chutou a bola para assim terminar o jogo. A bola caiu em um lote vago na esquina da rua. Como a bola era de Guilherme, ele entrou lá para pega-lá.

Guilherme chegou em casa exausto. Sua mãe , Eunice, havia preparado um jantar. Arroz, feijão e bife de boi. A carne era de segunda. Ela estava lavando alguns utensílios de cozinha na pia quando Guilherme chegou abrindo a porta da cozinha. Ele havia pego um atalho pelo lote do fundo de seu quintal para encurtar o caminho. Dona Eunice se virou para ele e ficou espantada com o estado do filho, ensopado, e cansado:

– Meu Deus Guilherme! Você tomou aquela chuva toda?

Gulherme acenou com a cabeça.

– Vai tomar um banho e desce pra jantar. Vou preparar algo quente pra você.

Seu pai Nonézio, assistia o jornal Candidés na sala, sem camisa, segurando um copo americano com um pouco de café no fundo. Guilherme comprimentou secamente o pai, que respondeu da mesma forma. Ele Foi para o quarto no final do corredor. Seu pensamento era um só: Como ganhar mais dinheiro.

Guilherme entrou no lote com cuidado, pois havia um pedaço do que antes era uma cerca de arame farpado na entrada. Ele passou pelo arame e começou a procurar a bola. Então ele ouviu um som atrás dele. Já estava escuro quando ele viu um par de olhos brilhantes. Era um cachorro de rua que estava vivendo no lote há uma semana. Todos sabiam que ele estava doente, com raiva. Os olhos do cão refletiram os faróis de um carro, que descia pela rua que fazia esquina com a rua de Guilherme. Ele ficou paralizado. Não consegia se mexer de medo. O cão latiu ferozmente. Guilherme se assustou com os latidos. Então o cão fez menção de atacar. Guilherme esperou o ataque.

Guilherme tomou um banho rápido. Já estava acostumado a tomar banhos rápidos para economizar energia. Foi para o quarto. Seu quarto como sempre bagunçado. Ele não tinha tempo para arrumá-lo. Um guarda-roupa velho ao lado da porta, sua cama encostada na parede, roupas espalhadas pelo chão. Um arco encostado ao lado da cama com uma aljava no chão. Um computador modesto em uma escrivaninha. Sua janela dava para a rua e os faróis dos carros iluminavam seu quarto ainda escuro. Ele então acendeu a luz. E começou a se assustar com a idéia que começava a se formar em sua mente.

O cão caiu no chão inerte. Uma flecha atravessara seu pescoço no instante que ele saltou sobre o garoto. Guillherme não entendeu o que aconteceu. Um farol de um carro iluminou o corpo do cão morto. O sangue escorria da ferida. Então Guilherme gelou:

– Está bem menino?

Disse uma voz rouca e forte com um sotaque. Guilherme virou-se lentamente e ficou ainda mais assustaddo com a figura que viu. Um homem alto, com a barba bem aparada e os cabelos grisalhos. Ele usava um paleto preto e calça preta. Tinha uma cicatriz no lado esquerdo do rosto. Sua pele era morena, quase negra. Nas mãos ele carregava um arco:

– Está bem menino? – Tornou a perguntar o homem.

Guilherme balançou a cabeça afirmativamente.

– Que bom.

– O cachorro tá morto? – Perguntou Guilherme apontando para o corpo do animal.

– Acho que sim.

– Isso aí é um arco e flecha?

– Bem é só o arco, as flechas estão aqui. – Apontou o homem para as costas, mostrando a aljava com alguamas flechas.

– E o senhor acertou o cachorro mesmo no escuro?

– Esperei um carro passar para assim ter uma visão melhor. Tive apenas sorte.

– Me ensina?

– A usar o arco?

– Isso! Quero fazer igual o senhor!

O homem era Armed Al Kaled. Um Egípcio naturalizado brasileiro que vivia há nos naquela rua. As crianças tinham medo dele. Os adultos o evitavam por ele ser estrangeiro. Apesar de viver em uma casa grande e suntuosa ao lado do lote vago, ele perdeu a família há alguns anos e era um homem solitário. Triste.

– Ensino. Agora vá pra casa que sua mãe está esperando.

Guilherme correu para casa sorrindo. No escuro Armed sorriu também.

Guilherme ouviu a tosse de sua mãe na cozinha. Ela estava doente. Há anos. Eles nunca tiveram dinheiro para um tratamento decente. Guilherme detestava aquela situação. Queria uma vida melhor. Queria sua mãe curada. Queria Já.

Ele então olhou para o arco no chão. O pegou. Puxou a corda algumas vezes. Então o colocou de volta e abriu a janela. Um morcego voava na amexeira do lote em frente a sua casa. Sua mãe continuava a tossir. Cada vez mais forte. O morcego voava livre e sugava várias ameixas. Ele estava começando a ficar irritado com o morcego. Era como se o animal zombasse dele com sua capacidade de voar, sua liberdade, sugando para sobreviver. Como um parasita. Sua mãe tossia.

Ele começou a se lembrar de todas as vezes que se aproveitaram dele, como o morcego fazia com a ameixeira, sugando seus frutos, se aproveitando do que ela tinha de melhor. Guilherme começou a ter um ódio profundo do morcego. Sua mãe quase vomitou na cozinha. Guilherme estava cansado. Não importava como, ele precisava sair daquela vida. Precisava tratar sua mãe. Guilherme então pegou o arco e uma flecha do chão. Armou a arma rapidamente e disparou o virote. O morcego caiu inerte.

Guillherme então teve uma idéia. Ele usaria a única coisa que ele sabia fazer. Usar o arco. Ele seria matador de aluguel. Usaria sua habilidade para ganhar dinheiro, se aproveitando do ódio e ressentimento que pessoas iguais a ele sentiam.

Guilherme sorriu.

P.S. Zorbinha continuará em breve….

Publicado em março 13, 2008, em Projeto 6-12-1. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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