Quem conta um conto: Nascida a contragosto

“O mundo a acolheu por pura caridade.” Esta seria a melhor frase para a lápide dela. A mãe passou por 9 meses de muito arrependimento e constantemente pensando em aborto. Talvez não tenha tido tanta força como gostaria. Perdera a coragem quando a pequena sobrevivera a segunda tentativa, onde quase que ela mesma que perde a vida. Tentar a terceira ficou meio arriscado. O pai fugiu de casa para não arcar com a responsabilidade. Afinal estava mordido pela pior das dores, a “Dor de Corno”. Mesmo que não podendo comprovar a traição tomou rumo ignorado. Provavelmente nem precisava, afinal as trofas e galhofas por onde passava já lhe tiravam o juízo. Como matar não era de seu feitio foi dar com a vida em outros cantos.

Quando finalmente veio ao mundo o irmão ainda muleque a culpava pela ausência de seu “pai-herói”. Uma espécie de “Complexo de Édipo” as avessas. O menino era mais identificado com o pai do que com a mãe. Beliscões, solavancos e xingamentos estavam mais presentes do que papinha e roupinhas de tricot. Talvez tenha sido o início de uma longa vida de crimes e de cadeias do pequeno malfazejo.

Mesmo com todo veneno e terreno inóspito ela crescia com a força de uma erva daninha em meio a pedregulhos. Mas nem de longe tinha tal aparência. Estava mais para uma pequena roseirinha de pote. Como era bonitinha a diabinha! Olhinhos grandes e sinceramente inocentes. Pois somente assim para não ver como realmente era sua vinda a este mundo.

Enquanto o tempo ía passando foi desenvolvendo uma personalidade forte, de bastante energia e muito atraente. A todos remexia com seu jeito de falar fácil. De voz forte vinda de um corpo pequeno, delicado e formoso. Era impossível ficar impassível diante dela. Nos homens a ausência do pai despertava uma vontade de a colocar no colo. Na maioria no sentido literal e com outras conotações mais carnais e alguns poucos com um sentimento pueril. E isto que as mulheres em geral não perdoavam. A quase totalidade das descontroladas a via como um mal a médio e longo prazo! Capaz de enfeitiçar o seu já entediado e safado marido. E quando isso acontece a alma feminina é implacável. No amor, na guerra e na fofoca não existe honra, apenas um objetivo a ser conquistado. E nesse caso fazer da vida da pequena um inferno era questão de tempo.

Em cada busca pelo amor verdadeiro que foi perceber o quanto o destino não a queria bem. E pelo tanto que acreditou e foi enganada por galantes apaixonados percebeu tardiamente que o ódio das fiandeiras das tramas do destino por ela era irremediavelmente grande. Quando as sucessivas decepções se tornaram pesadas demais resolveu que essas coisas de amor não era mais para ela. E pior. Começou a sentir uma raiva incontida de quem estava bem nas coisas do coração a sua volta. Resolveu que iria ser aquilo que todos já diziam. Como já tinha a fama então deitaria realmente na cama. Casados, noivos ou simplesmente namorados, o que importava é ter compromisso.

E assim foi. Até que a “má gramática da vida” começou a escrever torto em linhas ainda mais tortas. Quanto mais corria do amor, mais despertava paixões. Homens lhe entregavam os corações da mesma forma ingênua e dedicada que fizera um dia. Porém se mantia firme em seu exílio. Porém em um dia casual, após uma longa conversa sobre coisas de amor com um daqueles que poderia ser o homem de sua vida sentiu um impulso incontrolável. Queria dizer algo não para aquele homem em sua frente, mas sim para algo muito maior. Após outra jura sincera de amor o pegou pela face, fitando-lhe diretamente nos olhos e disse:

– A muito me retirei das coisas do amor para não me retirar da vida. Esta vitória você não terá. Demorei para perceber que não me queria por aqui, que dirá me queria feliz. Continuarei levando a vida que me foi permitida construir mesmo com todas as dificuldades.

Neste momento os olhos do rapaz brilharam diferente. Uma gota que caía de uma calha parou, ficando suspensa no ar. O tempo tinha parado. Foi a vez dela ter o rosto colhido em mãos. E a voz mais seca que então tinha ouvido ressoou por toda a sala:

– Você era a mais doce das criaturas. Umas das mais dotadas de bondade. Foi colocada em meio a podridão para saber quanto tempo demoraria para corromper-se. Em uma aposta sempre há um vencedor. Eu venci.

Enquanto ainda esfregava os olhos viu um vulto saindo pela porta. Sem saber se havia sonhado correu para ver se o alcançava. Mas não havia ninguém no corredor. Não sabia o que tinha acontecido, mas sabia que sua vida enfim mudaria…

ps.: Neste momento você de estar se perguntando mas qual é o nome dela? Acho melhor não dizer. Talvez você a conheça, talvez você a tenha visto por aí e talvez você tenha ajudado a corrompe-la. Talvez ela exista, talvez não. Talvez…

Publicado em julho 1, 2011, em Estórias pra boi dormir e marcado como . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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