Quem conta um conto: A vizinha

Roberto era um cara comum, até demais, segundo sua esposa. Na casa dos seus 36 anos sentia que sua vida estava no meio. Afinal nunca pensou em viver muito mesmo. Acreditava que ser um centenário era mais um castigo do que uma proeza. Se bem que ser o meio era sua especialidade. Não era bom nem ruim em nada. Quando jovem não era o melhor nem o pior em notas. Nos esportes nunca foi último a ser escolhido nem muito menos o craque do time. E na vida amorosa então. Sempre a média. Nem feias, nem bonitas, nem muitas e nem poucas. Em resumo, nunca se destacou em nada. A não ser na mediocridade.

Pouco antes de completar 35 anos, Roberto teve uma crise de idade. Começou a se sentir velho. A sensação de estar caminhando para a metade final de sua vida se tornou real e muito pesada. Enquanto a maioria resolveria praticar esportes, comprar roupas novas e ler todos os livros sobre sexo tântrico ele não. Seria ridículo demais. O mais honrado neste momento era aceitar o rótulo de tiozinho.

Lucia, sua esposa, foi quem mais se zangou com essa decisão. Não que o antigo Roberto fosse a realização de seus sonhos. Longe disso, o achava conformado demais, pacato demais e o seu adjetivo favorito, previsível demais. A diferença de 6 anos do casal nunca tinha sido tão desconfortável como agora. Ao completar 30 anos e se ver uma balzaquiana, Lúcia queria mudanças. Queria engravidar, coisa que antes nunca quis. Dizia que ser enfermeira era cuidar dos filhos dos outros. Queria mudar para uma casa melhor, queria um carro melhor. Tudo o que Roberto abrira mão de querer agora que sentia a morte lentamente chegando.

Era um daqueles dias em que o verão faz jus ao que se propõe, onde os pingüins não estão em cima da geladeira, mas sim dentro do congelador para ver se conseguem esfriar a cabeça. Depois de muito suar Roberto decidiu tomar um banho para se refrescar. Quando desligou o chuveiro percebeu que tinha esquecido a toalha. Como estava sozinho em casa, afinal a esposa trabalhava no turno da noite, ficou pensando em como faria. Estou em minha casa, que mal há em sair daqui pelado? Pensou de repente. E em um ato de rebeldia respirou fundo e saiu como viera ao mundo. Ainda empolgado com tal façanha, afinal de contas se a esposa estivesse em casa ele não estaria fazendo aquilo, resolveu que assim ficaria. O calor que fazia foi determinante na decisão.

Ao ir para sala resolveu dar um daqueles piques que crianças arteiras dão dentro de casa, quando escorregou em um tapete colocado criminosamente em um corredor bem encerado pela diarista. Estatelou-se no chão com tudo o que tinha direito. Quando abriu os olhos acreditava que veria as portas do céu ou o pronto-socorro onde Lúcia estava de plantão. Ao finalmente se pôr de pé conferiu se algo estava quebrado ou sujo de sangue. Não agüentou e caiu na risada imaginando a própria cena. Riu mais ainda quando imaginou a cara da esposa ao chegar e encontrar o “Sr. Previsível da Silva” caído pelado no corredor do apartamento.

Caminhando e manquitolando conseguiu sentar no sofá. Ao olhar para a janela não acreditou no que via. Esfregou os olhos para ver se estava alucinando da pancada. Via uma moça no apartamento da frente dançando graciosamente. A ninfeta não passava dos seus 18 aninhos, de pele imaculadamente branca e um ardente cabelo vermelho. Chegava a jurar que tinha visto, mesmo com toda a miopia que seus olhos puderam lhe dar, um cristalino par de olhos azuis. Quando mais ela dançava mais chamava a sua atenção como os seus seios eram tão rijos e suculentos. Ao reparar bem naquela cintura e quadril agora entendia o significado da expressão “mulher violão”. Como podia nunca ter reparado naquele pitelzinho logo ali atravessando a rua? Resolveu chegar na janela mesmo estando nu. Ao chegar e ficar parado fitando fixamente a ninfeta se sentiu vivo novamente. De repente ela se virou e sem saber se escondia ou acenava ficou travado, não menos de repente seu celular tocou. Dando um susto tão grande que não sabia se a jovem o havia visto. Quando atendeu, Lúcia disse com uma voz tensa e sem afeto que esquecera a chave em casa e que não era para ele dormir pesado porque teria que abrir o portão para ela. Quando voltou a musa dançarina não estava mais lá e o apartamento estava todo apagado. Roberto não sabia o quanto aquilo havia mexido com ele, mas que estava diferente isto ele sabia.

No dia seguinte não conseguiu trabalhar. Ficou o dia todo desenhando a nifetinha. Sim! Roberto desenhava! Não era um excelente desenhista, e como era de se esperar era mediano. Fez rascunhos da moça em todos os papeis que via pela frente. Parou quando percebeu que sua baia estava cheia daqueles papeizinhos amarelo de recados com ruivinhas pregados por todos os lados. Ao ir embora resolveu passar no shopping e comprar um binóculo. Ao invés disso saiu com uma luneta. Quando chegou em casa é que pensou em como explicar isso para a esposa. Reconhecidos por todos como um pão duro incorrigível, como podia comprar um trambolho daqueles. Se descobriu um mentiroso de mão cheia quando disse para a esposa que resolvera que passariam mais tempo na roça de seu pai para encomendar o filho que ela tanto queria.

Na primeira noite que ficou sozinho em casa a misteriosa não apareceu. Nos dias seguintes Lúcia teve folga do trabalho. Como havia prometido o herdeiro para encobrir a luneta teve que comparecer durante toda noite, mesmo que seu pensamento estivesse na vizinha. Quando começava a pensar naquele corpo se animava como nunca antes. Lúcia ficou surpresa, mas não quis dizer nada por que independente do que tenha sido para ela estava ótimo. Procurou jeitos de perguntar sobre o prédio da frente sem levantar suspeita. Obteve como resposta apenas que a esposa trabalhava muito e não tinha tempo para saber da vida alheia.

A ansiedade em ver a vizinha novamente o corroia as idéias. Afinal depois de vários dias com os olhos fixos para a janela e nada dela aparecer já pensava em vender a luneta e estava convencido que aquilo provavelmente era uma alucinação da queda. Quando resolveu dar mais uma olhadinha para o apartamento da frente mal pode acreditar no que via. Todas as janelas estavam abertas e acesas. Achou estranho mas com o calor que estava fazendo e um possível medo de escuro achou razoável. Lá estava ela. Deitada confortavelmente de bruços em um sofá balançando os pezinhos enquanto lia um livro de capa escarlate. Mesmo se esforçando não conseguiu ver o título. Preferiu acompanhar o desenho de cada curva daquele corpo. Do narizinho empinadinho até os pezinhos delicados balançando suavemente. Quando ela limpou uma lágrima escorrendo pela bochecha Roberto sentiu uma palpitação que quase lhe tirou o fôlego. Venceu o impulso de sair correndo e ir até lá quando ela fechou o livro e se levantou. Caminhando vagarosamente ao quarto onde começou a tirar a pouca roupa que vestia. Deu três tapinhas na luneta como que agradecendo cada centavo que gastara naquilo. Parou de respirar quando a vizinha ficou apenas de calcinha de algodão na frente do espelho dando tapinhas na barriga para ver se estava tudo no lugar. E como estava! Acreditou ainda mais em Deus quando ela se virou para conferir se seu bumbum estava nos conformes. Só se lembrou de soltar o ar e puxa-lo de volta quando ela pegou a toalha e foi para o banheiro.

Começou a andar pela sala como um leão da savana trancado em uma pequena jaula de um circo menor ainda. Queria pensar em um motivo para ir até lá. Estava decidido. Chegou na janela para contar os andares mas o apartamento estava totalmente apagado. Nem teve tempo de pensar em um porque, Lúcia acabara de chegar do trabalho. Nem perguntou o porquê ela chegou mais cedo. Estava zangado demais com a interrupção para falar alguma coisa sem levantar suspeita.

E por várias noites o mesmo ritual acontecia. A vizinha aparecia, Roberto ficava completamente enlouquecido e quando resolvera ir até lá algo o impedia. Tornou-se agressivo e seu relacionamento com o mundo a sua volta ficava cada vez pior. Seu rendimento no trabalho que nunca foi bom se tornou nulo. Numa discussão mandou o chefe às favas e nunca mais voltou. Ao invés de contar à esposa o que havia acontecido, saía religiosamente no mesmo horário para o trabalho mas ficava na porta do prédio da frente esperando a vizinha sair ou chegar. E por dias isso ocorreu.

Em um desses dias de tocaia não se agüentou e adentrou no tal prédio da frente, rumo ao 4º andar. Quando chegou diante da porta fraquejou, mas como já tinha chegado até ali não retornaria. Mal acabou de tocar a campainha e o seu anjo proibido de cabelos vermelhos abriu a porta. Com o sorriso de canto de boca mais safado que este mundo já viu pronunciou palavras que foram música para Roberto: “Porque demorou tanto? Pensei que nunca viria.” A enlaçou pela cintura e vagarosamente para aproveitar aquele momento foi aproximando para tascar um beijo naquela boca suculenta quando sentiu um choque violento por seu corpo. Abriu os olhos e viu de relance uma confusão de imagens, e novamente a vizinha. Quando tentava entender o que havia ocorrido um novo choque tomou-lhe a razão. Abriu de uma vez os olhos e entendeu onde estava. Entubado em um leito de CTI com toda uma equipe médica ao seu redor e um médico com um reanimador estralando nas mãos. Uma lágrima escorreu de seu olho, todos acharam que era felicidade por estar vivo, mas na verdade era o desespero por voltar para sua merda de vida.

Depois de alguns dias de observação, muitas visitas e várias explicações de que havia caído no tapete do corredor e sido encontrado pelado, desmaiado e sobrevivido por milagre voltou para casa. Enquanto todos achavam que o silêncio de Roberto era efeito do acidente ele sabia que desejava realmente ter morrido. Ao chegar em casa olhou primeiro para o prédio da frente. Reparou que havia um caminhão de mudança trazendo uma nova família para aquele prédio. Enquanto Lúcia pagava o táxi, de pé no passeio reparou que as janelas do apartamento do 4º andar estavam abertas. Olhando de volta para o caminhão viu sair dele uma ninfetinha de pele imaculadamente branca e um ardente cabelo vermelho. Após a tradicional palpitação viu que ela, com o sorriso de canto de boca mais safado que este mundo já viu, piscar para ele. E sim, ela tinha olhos azuis.

Publicado em julho 8, 2011, em Estórias pra boi dormir, Nonsense e marcado como , , . Adicione o link aos favoritos. 2 Comentários.

  1. Boa…

    Quem não sonha com uma vizinha gostosa e safada?

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