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A guerra literária na Guerra dos Tronos

Desde oito de maio (ou antes, para quem visitou uma “importadora”) a série televisa da HBO The Game of Thrones, ou A Guerra dos Tronos, baseada na série literária de George R. R. Martin tem sido o foco das críticas e resenhas nos sites especializados. A série, que se passa em um mundo fictício, relata a guerra de famílias nobres para conquistar o poder máximo de Westeros: O Trono de Ferro.

Como fui veementemente orientado para não publicar nenhum tipo de spoiler (mesmo porque as resenhas de outros sites já esgotaram ao máximo as críticas sobre a história), decidi deslanchar aqui uma análise voltada mais pela escrita de Martin e a comparação inevitável feita entre ele e outros autores da literatura fantástica de capa e espada, como Tolkien.

Pra começar, Martin tem um tato especial para lidar com um gama incontável de personagens. Quem começar a ler o primeiro volume pode até mesmo ficar perdido nos primeiros capítulos até conseguir conhecer melhor os personagens. Quando foi anunciada a adaptação, sinceramente, duvidei que pudesse render um bom resultado, mas pelo visto estava enganado.

O autor teve uma preocupação de pensar e retratar com detalhes a personalidade de seus personagens, desde o chefe da casa Stark, Eddard Stark, até um simples escudeiro, personagem secundário que nada mais faz além de cumprir suas obrigações. Esse nível de detalhamento transforma os livros em calhamaços que facilmente ultrapassam as 500 páginas (dizem que o terceiro volume terá mais de 1.200). Como um bom leitor de literatura fantástica no geral, a narrativa de Martin é muito semelhante ao estilo de King.

Em The Stand (A Dança da Morte), o autor de Carrie, Christine, O Iluminado e tantos outros sucessos, escreve uma introdução bem interessante para justificar o porquê da criação e do relato de pequenos detalhes da história que costumam ocupar grande parte dos livros. Nesse relato, que aqui resumo, King conta a história de João e Maria de duas formas. A primeira ele diz que um casal de crianças se perde na floresta, encontra uma bruxa malvada, que os aprisiona para se alimentar deles depois. Porém, os dois conseguem escapar, atiram a bruxa no forno e fogem de volta para os seus pais. Já na segunda versão, ele conta novamente a história, mas dessa vez inserindo os detalhes que tantos de nós conhecemos desde a infância, como as migalhas de pão, o osso no lugar do dedo e a casinha de doces.

Sendo um dos meus autores preferidos, defendo o ponto de vista de King de que uma boa história demanda detalhes e é isso o que Martin faz em sua Guerra dos Tronos. Tolkien bebe um pouco dessa fonte, mas no seu caso, os detalhes não estão necessariamente na história do Senhor dos Anéis em si, mas sim, no mundo todo da Terra Média, como a linguagem das criaturas, criação do mundo e heróis do passado.

Entretanto, para quem leu Tolkien bem antes do filme (assim como eu), a narrativa dele nem sempre é atrativa. Quero deixar claro aqui que de modo algum pretendo desvalorizar o trabalho do pai de Frodo e cia, mesmo porque ainda me lembro de que quando li, fiquei tão empolgado quanto na obra de Martin.

No caso de Tolkien, a fantasia é gritante, com anões, elfos, hobbits, orcs e outras criaturas caminhando pela Terra Média. A história segue bem os passos do herói clássico, como Luke Skywalker, que vivia em um lugar ermo e tranquilo e se vê obrigado a entrar em uma guerra que até então não acreditava ser sua. A temática é bem maquiavélica, com mau literalmente encarnado em Sauron e com alguns outros personagens confusos em relação do que fazer.

Já Martin parte de um pressuposto de não ter um personagem principal, mas uma leva gigantesca. No caso do livro, o autor utiliza uma ferramenta bem empregada por Stoker, em Drácula, escrevendo os capítulos sob a ótica de personagens diferentes. Essa iniciativa, de certa forma, coloca o leitor mais perto do personagem, porque ele tende a ver os desdobramentos dos acontecimentos sob a ótica do personagem, seja Bram Stark, em Winterfell, ou Tyron Lannister, em Porto Real, na Muralha e no Ninho da Águia.

Outra diferença gritante entre Tolkien e Martin é que em O Senhor dos Anéis, a história é escrita com mais pudor e nas crônicas de Westeros o sexo, envenenamento, traições e assassinatos são rotineiros. Pelo trono de ferro, as famílias poderosas dos Sete Reinos Livres não medem esforços para tomar aquilo que mais querem: poder.

Para quem joga RPG (onde o forte são as histórias de capa e espada), o Senhor dos Anéis está mais para um D&D, com monstros a serem detidos com armas mágicas e bolas de fogo e a ação de um grupo de heróis para destruir um grande mal. Já a Guerra dos Tronos tem mais proximidade com a temática dos livros da White Wolf, principalmente Vampiro, onde clãs sanguíneos ou ideológicos se unem para conquistar cargos de influência por meio de maquinações políticas, traições e mortes.

Já em relação à adaptação, GoT é extremamente bem feita. Não é a toa que as produções da HBO sejam tão bem cotadas no mercado. O que me assombrou foi como a produtora conseguiu enxugar ou cortar aqueles detalhes que citei acima sem estragar a história (o que dificilmente as produtoras de longas conseguem fazer com as obras de King).

A série está no quinto episódio (ou no sexto, se você estiver lendo esse artigo depois do dia 23 de maio). Até o corte da presença dos lobos gigantes dos Stark, tão presentes nos livros, não tirou o brilho da série. Os personagens ficaram bem caracterizados, com atenção especial para o ator que interpreta Tyron Lannister. Peter Dinklage é um anão na vida real (e já viveu o vilão Simon, do filme Vira-Lata), mas no papel do Duende, o filho deformado de Tywin Lannister, ficou impecável. Para mim, o personagem mais bacana de toda a obra, tanto nos livros quanto na adaptação.

Mas agora, já vestindo o meu terno de advogado do diabo, sou obrigado a dizer que apesar de A Guerra dos Tronos ter um apelo mais malicioso, com uma história repleta de tramas e reviravoltas, a obra de Tolkien não fica muito atrás. Para quem não sabe, O Senhor dos Anéis é somente parte do que das histórias da Terra Média e os contos que fazem parte de outros dois livros (Contos Inacabados e Silmarillion, já lançados no Brasil), contem mais ação, mais sangue e histórias mais densas, como a de Berem.

Já a obra de Martin, só posso comparar em pé de igualdade para outra obra de literatura fantástica: a primeira trilogia de Dragonlance. Criada e escrita por Margareth Weis e Tracy Hickman há mais de 20 anos, a série que conta as histórias se Tannis e seus companheiros une as criaturas fantásticas de Tolkien com a trama de Martin, aliada ainda a uma narrativa ágil, engraçada e atrativa.

Para quem curte séries televisivas, The Game of Thrones é uma excelente pedida, mas ainda recomendo o livro. A cena em quem Tyron encontra Catelyn Stark em uma taverna, ainda no primeiro livro, é fantástica (esse é o único spoiler que darei – hehehehe).

Ainda estou lendo o segundo livro e espero encerra-lo logo. A previsão é que cada temporada da série corresponda a um livro. O terceiro volume, A Tormenta de Espadas, está previsto para Setembro deste ano. A Feast for Crows, quarto volume, para o início de 2012. O quinto volume, A Dance with Dragons, ainda está sendo escrito e está previsto para Julho de 2016. The Winds of Winter e A Dream of Spring, sexto e sétimo volumes respectivamente, ainda não tem previsão de publicação.